Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

COPACABANA – ETERNA PEREGRINAÇÃO PRÉ-COLOMBIANA

A pequena Copacabana (Bolívia) é uma cidade muito acolhedora. Fica na orla  do Lago Titicaca, e vive em função de seu Santuário, dedicado a Virgem da Candelaria (ou Virgem de Copacabana), que começou a ser construído em 1605. Mas muito tempo antes, já era local de peregrinação. Os espanhóis em nenhum momento tentaram mudar essa força espiritual. Ao contrário, aproveitaram e fizeram da península, o maior santuário de sua férias.

O padre Ramos Gavilán é o cronista mais procurado para quem pretende conhecer a antiga história de Copacabana. Repudiava as crenças indígenas, descrevendo com horror, seus ídolos pagãos. Em sua crônica, História de Nuestra Señora de Copacabana (1621) notamos algumas partes significativas para a história desta peregrinação. Em determinado trecho, Gavilán descreve uma importante festas indígenas: "quando em Copacabana se celebrava o Capac Raime e o Inti Raime, os da parcialidade dos incas punham todos os ídolos em suas rampas que adornavam com muitas flores e plumarias, pranchas de ouro e de prata... e iam todos a ilha (do Sol )... e as punham em um templo grande com cinco portas, e durante a dita cerimônia não permitiam o ingresso aos Collas.

Os fiéis ficavam descalços e sem mantas prostrando-se diante dos ídolos para adorá-los..." Estátuas e tesouros perdidos não deixam de escapar aos olhos dos religiosos, que os descreveram com visível entusiasmo. Gavilán relata em pormenores a peregrinação e os ídolos adorados pelos incas no século XVI. O principal foi o Sol, representado pela estátua de um inca feito em ouro e coberto das mais finas plumarias.

Segundo outro cronista (Calancha), o termo Copacabana provém de um ídolo em pedra azul. Segundo seu relato: "outro ídolo famoso foi o de Copacabana (Kupi Kawiña, na língua aymara), que deu nome ao povoado, que era uma pedra azul vistosa, colocada em seu templo que estava para o lado de quem vai ao estreito de Tiquina... rosto feio e corpo como peixe, a este adorava por deus de sua lagoa e por criador de seus peixes..." Os primeiros cristãos, tomaram imediatamente uma medida contra essas imagens pagãs. Baseados no evangelho e na força das armas arrebentaram os ídolos em nome do catolicismo, jogando seus pedaços nas águas do Titicaca. Muitos nativos, inconformados, rebelaram-se. Mas a maioria foi obrigada a sujeitar-se. A eles, nada mais restou do que exercerem uma resistência silenciosa, adorando seus deuses e cultivando suas crenças às escondidas.

Poucos sabem, mas para defender este importante território, os Incas construíram um gigantesco muro, isolando a península de Copacabana! Ao que parece, a obra foi interrompida com a chegada dos espanhóis. Localizava-se na altura da atual cidade de Yunguyo, onde existe até hoje um estreito de terra que tornaria a tarefa mais acessível. Os Incas - de língua quéchua - estavam assim, construindo uma "ilha étnica", em pleno território aymara.

DaltonDelfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/) 

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 09/03/2018 às 14h39 | daltonmaziero@uol.com.br



Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


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