Jornal Página 3
Coluna
Cá Pra Nós
Por Fernando Baumann

Detalhes tão pequenos

 Tinha o hábito de assistir um programa sobre desastres aéreos num canal pago. A questão que me prendia ao seriado não era a tragédia em si, mas aos fatos que levavam ela a ocorrer.

Uma das que mais me marcou foi o acidente com um dos últimos aviões concorde em operação, no aeroporto Charles de Gaulle na França no ano de 2000.  O concorde era um avião de bico fino e levemente arcado para baixo, com design marcante, o jato supersônico viajava a aproximadamente dois mil quilômetros por hora, o dobro dos jatos tradicionais. O assento custava muito caro, mas valia a pena para quem não tinha tempo a perder.

O voo 4590 da Air France entre Paris e Nova Iorque era um voo regular. Naquele 25 de julho assim que decolou explodiu, ainda no final da cabeceira da pista, sem conseguir ganhar altitude, matando todos os seus ocupantes.

Como de praxe, os restos da aeronave foram recolhidos para iniciar a investigação e determinar as causas do acidente, sempre com o objetivo de assegurar melhores condições de segurança para os voos futuros.

A primeira descoberta foi de que houve uma ruptura no tanque de combustível número 5, que cheio vazou e deu ignição à explosão. O próximo passo foi descobrir o que provocou esta ruptura. Em visita à pista de decolagem que estava fechada enquanto a perícia prosseguia, encontraram um parafuso bem na rota do pneu do trem de pouso, e pela marcação foi identificado como pertencente a um DC 10 que levantara voo instantes antes. Numa análise mais técnica e apurada perceberam que faltava uma lasca do pneu do trem de pouso do concorde.  

Na conclusão do relatório técnico a constatação da trágica sequência de fatos. Um parafuso mal apertado de outra aeronave que decolou anteriormente caiu na pista na rota da decolagem, que atingiu o pneu exatamente na posição em que rasgou um pedaço, e que esse pedaço foi projetado com velocidade exatamente na direção da asa, que furou e vazou combustível, causando a explosão.

No relatório prático, a lição de que a causa de um acidente não é apenas um único e derradeiro fato, mas sim a sequência de pequenos acontecimentos que isoladamente seriam irrelevantes, mas que no conjunto se potencializam e podem derrubar um avião.

Os detalhes! Na conversão do aprendizado, fica registrado a importância de cuidar das pequenas coisas, das decisões diárias que ao final de uma vida irão representar a relevância da existência de cada um. O caminho reto ou o caminho torto.

É tudo soma das escolhas que fizemos.

B x P = D, onde “B” é a bússola(princípios, valores e crenças),  “P” são os passos(fazer ou não fazer) e “D” é o destino.

Muito simples.

Escrito por Fernando Baumann, 13/08/2018 às 10h20 | fernando@bba-reiki.com.br

Apenas provas de amor

 Quando levanto de manhã, ato contínuo a higiene básica é ler as principais notícias nos jornais que tenho acesso. Demoro um bom tempo nisso. O Página 3 de hoje fala sobre importantes obras viárias licitadas pela prefeitura municipal de Balneário Camboriú, que visam melhorar o fluxo de veículos. Li e guardei a informação no “meu” HD.

Moro na região da Quarta Avenida e trabalho no bairro Nova Esperança. Sempre que possível vou de bicicleta, por três objetivos: ativar meu corpo, não poluir e colaborar com um carro a menos. Hoje foi um desses dias. Temperatura agradável e céu claro atiçaram meu desejo de pedalar, sem falar que não tinha nenhum compromisso fora da empresa.

Este trecho demora em média 15 minutos de bicicleta, no que aproveito para repassar minha agenda ou então para refletir sobre qualquer assunto, deixando minha mente livre para fluir por onde desejar.

Já na Quarta Avenida indo para a minha empresa, nos cruzamentos com semáforos, deparo com a dificuldade por conta de não haver sinalização para as bicicletas. Em que momento eu posso passar? Passo quando está aberto para a avenida ou para quando está aberto para a rua transversal? Então busco no “meu” HD a informação que li no Página 3 hoje de manhã. Novas vias, ligações, novas ruas...

As eleições municipais de 2016 já ocorreram num cenário de indignação e mudanças. Lembro que os primeiros movimentos mais substanciais aconteceram em 2013. Quando fomos às urnas já falávamos de uma nova consciência e de um novo perfil dos postulantes aos cargos públicos, e também da melhoria na qualidade das escolhas e de uma nova ordem pública.

Novas ideias, novo sangue e juventude.

Tento muito perceber mudanças, mas não consigo. Talvez seja consequência da minha visão míope ou da minha incapacidade de entender as entranhas do poder e a dificuldade de movimentar este mastodonte.

Ouço e leio sobre mega projetos daqui e dali, mas não vejo nada com relação aos detalhes, ao carinho que os munícipes merecem receber nas pequenas ações. Vou exemplificar: apesar de existir em boa quantidade, as ciclovias são péssimas, mal projetadas e mal executadas(a recém inaugurada no prolongamento da Quarta Avenida empossa água); as calçadas não tem cuidado algum, cheias de desníveis e inclinações, sem falar nas lixeiras plantadas em cima delas, um risco eminente; sinaleiras sem estágio para travessia de pedestres; pedintes e desocupados por todos os cantos; venda de produtos em sinaleiras, farto consumo de drogas na orla  e assim vai. Tenho uma relação enorme para publicar se necessário, fáceis de executar, é só querer fazer.

Mas aí vem o ponto central deste texto. Aonde estão as figuras públicas responsáveis por isso? Àquelas eleitas em 2016 para uma nova ordem? Cadê os vereadores para fiscalizar, que é a principal função deles? Ah desculpe, não havia lembrado, estão preocupados em conceder homenagens e participar da próxima corrida eleitoral. Realmente uma grande atribuição para este tempo que exige mudanças urgentes.

Sou um eterno otimista e sempre acredito que, mesmo piorando, as coisas podem melhorar. Tenho muita alegria em viver numa das melhores regiões que, apesar de tudo, está a frente de muitas outras. Mas apenas novas ideias não bastam, é preciso ter novas atitudes. E então se está bom vamos cuidar para não piorar. 

Escrito por Fernando Baumann, 08/08/2018 às 09h52 | fernando@bba-reiki.com.br

A trama

 Acredito na transformação através do diálogo e da discussão de ideias, e também no poder do entendimento mesmo quando discordante. A razão não é propriedade particular de um determinado ser, e sim o entendimento coletivo construído ao longo do tempo. Participar do processo eleitoral é fundamental, como também após a posse, contribuindo para a melhoria do que está aí.

Entendo que toda a dificuldade e instabilidade política que estamos vivenciando é de extrema importância para a melhoria do sistema. O fogo transforma e também dói bastante, mas é necessário.

Na reta final da definição dos candidatos, percebo grande movimentação entre os partidos políticos, num verdadeiro frenesi de intenções e possibilidades. Como eleitor me interesso pelo tema, até porque mesmo não concordando com muito do que está aí, não posso deixar de participar do processo, tomando a decisão da escolha, que não será branca nem nula.

Infelizmente temos muitos motivos para não pensar assim. Os partidos continuam tendo dono, sendo geridos como um negócio. A discussão ideológica ou de ideias está longe da pauta, o que deveria ser assunto primeiro dada a grave crise. Não vi em nenhum momento algum partido destes que estão aí assumir alguma responsabilidade sobre o que está acontecendo. Chamar para si o compromisso de acertar, admitindo que errou. Isto sim seria um ato de extrema grandeza. Até parece que os acontecimentos são obra do acaso. Engraçado, todos se dizem vítimas!

Observando o momento tenho a sensação de que pouco aprendemos com as dificuldades vividas. Na apresentação dos pré-candidatos nada se fala sobre planos efetivos de governo e ações concretas de restabelecimento da ordem econômica, social e política. O próximo governo tem uma bomba relógio para desarmar, queira ele ou não.

Traições, acertos e interesses espúrios ainda estão na pauta das composições que herdarão(ou continuarão) o próximo governo. Cabe ao eleitor então, dentro do seu entendimento, depurar isto que está aí. Não dá para ficar alheio ou fazer de conta que tanto faz, por que não é verdade. Por mais difícil que seja, a escolha precisa ser feita.

Eu ainda não sei em quem vou votar(também nuca participei de pesquisa de intenção), mas já defini duas premissas: não voto em candidato que esteja cumprindo mandato ou que tenha renunciado para concorrer; para quem conseguir, vou avisar que vou votar nele, para que ele saiba que vou cobrar.

O momento é ótimo. Sorte pra nós!

Escrito por Fernando Baumann, 03/08/2018 às 09h24 | fernando@bba-reiki.com.br

Materialidade

Nossa cidade é destaque em aparências. Talvez pela praia ou pelo clima, ou então pelo multiculturalismo, e também pela vida noturna. Possivelmente tudo isso junto e mais algumas coisas que não consigo alcançar.

O culto ao corpo encontra aqui forte adesão, junto com veículos espetaculares e apartamentos deslumbrantes. Balneário é lugar para aparecer e causar. Conheci algumas pessoas que em sua cidade de origem levavam vida simples e regrada, e que aqui se soltavam. Algo errado com isso? Acho que não, a “wibe” aqui é outra. E também os carnês na gaveta não importam, isso ninguém vê.

Quando comecei a usar bicicleta em meus deslocamentos diários, muito antes de virar moda e ter ciclovias, houve alguns conhecidos que me ligaram perguntando se eu estava precisando de ajuda, como se o veículo falasse da minha situação financeira. Eu ria e agradecia, dizendo que tinha muito pouco, mas o suficiente para viver com dignidade.

Teve inclusive uma passagem muito engraçada. Numa transmissão de presidência de uma importante entidade que já dirigi, realizada num hotel bem bacana aqui de Balneário, fui de bicicleta pela facilidade do estacionamento, já que o evento era em área central da cidade. Chegando lá de terno e gravata pretos o manobrista olhou para mim e num movimento rápido bateu dois dedos em cima do relógio de pulso e disse: “você está atrasado, os garçons já estão servindo os convidados”, e me encaminhou pela porta de serviços para um rápido acesso ao local de trabalho. Não falei nada e entrei no clima, me divertindo com a situação. Pena que no final da noite fiquei sem as gorjetas!

Não quero aqui impor meu olhar sobre o tema, pois cada um o faz conforme a sua medida. Ter ou ser. Ser ou ter. Cada um decide o seu caminho.

Essa é apenas a minha percepção de um mundo cada vez mais visual que valoriza posses antes de virtudes. 

Escrito por Fernando Baumann, 25/07/2018 às 10h08 | fernando@bba-reiki.com.br

A escuridão

 Muitas vezes me pego pensando por que estou aqui, aliás, por que não, mas para que. Qual o meu objetivo e a minha missão enquanto ser humano? Acredito que pela perfeição e detalhamento do “projeto” certamente não é apenas para passear ou gozar os prazeres da carne. Não teria muito sentido isso pois é tudo efêmero e ilusório.

Olhando uma foto aérea de um rio com vários barcos notei a marola produzida no rastro de suas passagens. Me chamou a atenção que apesar de suave e delicada as jornadas deixavam rastros que mudavam conforme o tipo e possivelmente a velocidade e modo de condução de cada embarcação. Então é isso: qual o rastro que estou deixando? Se tudo é transitório, qual a minha marola?

Não sei como é para você, mas eu tenho o hábito de reclamar dos outros e achar que eu sempre estou certo, que a minha verdade é a que vale e que o meu mundo é melhor que o do outro. Por muito tempo acreditei que minha missão seria consertar tudo que está aí. Por vezes ainda penso assim.

Por me achar perfeito cego meus olhos às verdades expostas. Talvez por querer esconder os meus defeitos procuro encontrar os dos outros. E qual o resultado disso? Qual a minha “marola”?

Na lida diária da existência, entre tombos sequenciais que dilapidam o meu estado de auto proteção, janelas de luz abrem caminho a compreensão de que sou um ser em desenvolvimento, que está no controle de suas decisões e de que é incapaz de corrigir o que está fora. Verdade dita, isto é impossível e desnecessário.

A marola dos outros até impactam na minha estabilidade, mas eu não posso impedir nem corrigir. Elas são o que são. O que eu preciso e devo é corrigir a minha marola. Esta é a minha missão aqui.

Difícil, não impossível.

Então eu quero e posso!

Escrito por Fernando Baumann, 18/07/2018 às 10h43 | fernando@bba-reiki.com.br

Mentes tão bem

 A mente, esta parte incorpórea ou sensível do ser humano, onde se desenvolve o raciocínio e o intelecto, é originada do latim méntem e significa pensar, conhecer, entender, e também medir, visto que alguém que pensa não faz outro que medir, ponderar as idéias(Wilkipedia).

Mas análogo ao significado original, também quero acrescentar a comparação com o verbo mentir. Mente de mentir. Normalmente nossa mente nos trai, levando nossos pensamentos para o passado, pensando no que poderíamos ter feito, ou para o futuro, pensando no que vamos fazer. É muito difícil nos mantermos em estado de plenitude, que é viver o presente pelo presente.

Ora, se o passado não volta e o futuro não existe, porque nossa mente transita nesses dois momentos? Simples, porque ela nos poupa do medo que temos de enfrentar nossas realidades e frustrações. Assim fica fácil transferir a responsabilidade para os outros e não assumir as nossas próprias.

Escuto dizer que a saúde é o bem mais precioso, mas quero aqui discordar. Entendo que o bem mais precioso é o momento presente, o aqui e agora, que não dá pra reservar ou estocar. Ele é o que é e não se repete. Do que adianta a saúde se a vida não existir?

Não tenho formação e tão pouco sou estudioso disso,  mas presto atenção em fatos. Olhe para a criança que aprende a andar. Durante muito tempo ela conhece o desequilíbrio. Somente após entender como funciona o desequilíbrio que ela conhece o equilíbrio, daí aprende a andar. Sua mente está livre, não julga e não restringe sua capacidade considerando-se inferior as demais crianças. Simplesmente vai.

Trabalhei durante 12 anos sem tirar férias, achei que estava fazendo o que era o certo, até que um dia minha filha, então com 09 anos, olhou pra mim e disse: pai, porque você não sorri? Você fica mais bonito quando sorri!

Desperdiçamos nosso tempo valorizando tanta coisa inútil. A vida, esse milagre Divino, jogado ao ócio por prazeres fúteis, condicionado a um pensamento atrasado ou adiantado, que não se ocupa em estar “no tempo”, que é o estado de graça e plenitude da existência.

Desculpe, acho que esse texto está um tanto confuso, sem ser muito claro ou inteligível, talvez por conta do tema difícil, ou da minha mente que não para de pensar nas contas que tenho que pagar amanhã, ao invés de curtir o descanso de hoje.

Triste fim de domingo.

 

 

Escrito por Fernando Baumann, 01/07/2018 às 17h42 | fernando@bba-reiki.com.br



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Fernando Baumann

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Economista, empresário e militante das causas coletivas, acredita no associativismo e cooperativismo como ferramentas para a construção de uma sociedade mais justa. Busca incessantemente evoluir como ser humano e social.


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