Jornal Página 3
Coluna
Crônica Semanal
Por João José Leal

Dia das Mães e Internet

No último domingo, foi comemorado o merecido Dia das Mães, data que deveria ser lembrada a cada dia, para reverenciar o ente querido que nos deu a luz e a missão cósmica de viver nesse extraordinário vale de lágrimas e sorrisos, porque a vida será sempre uma gangorra de horas amargas e de momentos felizes. . A todas as mães brusquenses, minhas leitoras, parabéns e o meu abraço.

Temos dia marcado para comemorar tudo e todos. Amanhã, será comemorado o Dia Internacional da Internet. Instituída pela ONU, em 2006 a data tem por objetivo lembrar a grande revolução ocorrida no campo da comunicação social e promover a inclusão digital. O passo inicial foi dado em 1969, com o primeiro email enviado de uma universidade da Califórnia. A partir dos anos 1990, a internet foi disponibilizada, de forma livre e gratuita, para um número de pessoas que não para de crescer.

Hoje, são mais de 4 bilhões de usuários em todo o mundo. Com mais de 116 milhões de internautas, o Brasil é o quarto maior usuário dessa infinita rede de computadores, que une as pessoas e as organizações públicas ou privadas em todo o planeta para a livre troca de dados, mensagens e informações.

A data deve servir, também, para uma séria reflexão sobre a influência dessa poderosa ferramenta de comunicação sobre o comportamento humano e, em consequência, sobre as nossas vidas. Afinal, somos todos ou quase todos navegadores desse imenso e fantástico oceano da comunicação virtual. Sem dúvida, a internet mudou o comportamento e a vida das pessoas, inclusive das nossas mães.

No último domingo, penso que somente as mães mais idosas, aquelas que pertencem à faixa etária das veteranas sem Iphone nem Androide nas mãos, que passam o tempo no crochê, tenham recebido dos filhos distantes que não compareceram ao almoço da família, aquele tradicional telefonema ou o carinhoso cartão com desenhos de flores e coração entregue pelo carteiro na porta da casa.

As mães mais novas, que trabalham fora do lar, dividem a educação dos filhos e os cuidados da casa com os bons maridos de hoje e, ainda, encontram tempo para surfar na onda contagiante dessa teia infinita de comunicação virtual que nos envolve, hipnotiza e nos domina, essas modernas esposas do século 21, com certeza, receberam a carinhosa mensagem filial pela rede sem tamanho e sem fronteira do Face ou do Whatsapp.

O tempo passou. Mas, o que nos conforta é que o amor de mãe continua o mesmo, resistindo às mudanças trazidas pela internet.

Escrito por João José Leal, 16/05/2018 às 07h56 | jjoseleal@gmail.com

Conversas Praianas 5 - O Trovão

Na mesa de uma confeitaria de BCamboriú, entre bolos, tortas e café, a conversa está animada. São mulheres de cidades diferente que só se encontram no verão e alguns feriadões, sustentando uma amizade ocasional, alimentada pelo feitiço do clima marinho com seu irresistível canto de sereia.

Uma delas, cabelos acastanhados pela ação da tinta aplicada em salão de venda de beleza e ilusão, óculos de sol daqueles de cobrir meio rosto, contava que seu apartamento estava virado numa balbúrdia. Seu filho mais velho tinha chegado com a mulher e três filhos para passar uns dias na praia. Trouxera um casal amigo com mais três moleques, daqueles de jogar bola no congestionado apartamento. E o pior, sem avisar nem pedir licença, a visita tinha trazido o cão de estimação, um Poodle dos grandes, de pelagem preta encaracolada, fitinhas plantadas na cabeça e no arrebitado rabo.

Um cão elétrico, temperamental, cheio de energia, latindo e correndo o tempo todo. Chamado de Trovão, o nome já dizia tudo. Disse a já idosa veranista para suas amigas: “Imaginem, vocês, o bicho tomou conta do apartamento. Estamos vivendo em meio a uma verdadeira tempestade, por conta do cão de estimação de uma visita que não conhecíamos antes. Meu marido é fazendeiro em Alegrete e ficou uma fera com a indesejada visita canina, engolida em nome da paz familiar”.

Com certa mágoa, a fazendeira explicava que, na fazenda, os cães de pastoreio correm por toda a extensa coxilha. Ajudam barbaridade no trabalho de reunir e conduzir o rebanho ovino até os currais. Mas, nenhum deles entra em casa. Quando muito, metem as patas no chão dos galpões para dormir sobre velhos pelegos, sovados pelo tempo de montaria. É assim que tratamos os nossos cuscos ovelheiros, como verdadeiros cachorros;

Não era o caso do Trovão, um cão granfino, cheio de si, penteado em salão de beleza, vestido com roupa de boneca, que só vai à rua acompanhado para fazer suas necessidades fisiológicas. Folgado, resolveu deitar no sofá da sala, bem no lugar em que meu marido costuma sentar para ver o noticiário da TV. E ninguém pode dizer nada para não contrariar a visita.

Com atenção, as amigas ouviam o relato da aflita fazendeira: “Meu marido, criado nas estâncias de fronteira, acostumado a botar touro selvagem de joelho no pialo e a enfrentar entreveros de bolicho, acha que o cão é gay. Ficou três dias emburrado com o desaforo da visita canina. Só não voltou para a fazenda porque quase não vê os netos. Mas, já disse. No próximo veraneio, não entra mais cachorro no apartamento”.

Tempo de veraneio, tempo de Trovão e de confusão.

Escrito por João José Leal, 09/05/2018 às 08h31 | jjoseleal@gmail.com

Lula, a prisão à sua espera

A justiça é uma instituição que só tem razão de existir quando dispõe do poder de decidir, de forma soberana, sobre conflitos que envolvem os indivíduos e entidades públicas e privadas. Todos sabem que uma decisão judicial pode não agradar uma parte ou algumas pessoas envolvidas, mas deve ser cumprida obrigatoriamente.

Mesmo que, para isso, seja necessário o uso da força.

Sem essa força soberana de executar suas sentenças contra quem quer seja, fracos e poderosos, não existe justiça e a vida social vira um caos.

Mas, nunca se viu, neste país, movimentos sindicais e partidários para afrontar e desacreditar a justiça ou contestar a validade de uma decisão criminal condenatória.

Lamentavelmente, é o que vem ocorrendo, desde o julgamento do TRF, de Porto Alegre, que confirmou a condenação de Luiz Inácio Lula por corrupção e lavagem de dinheiro.

Petistas e dirigentes de alguns movimentos sociais estão contestando a validade da decisão. Não se constrangem em defender, em praça pública, um corrupto condenado pela justiça criminal de segundo grau.

Sem coragem para falar de inocência - sabem muito bem que o líder supremo tem culpa em cartório – alegam falta de provas, perseguição política.

Gritam, aos quatro ventos, que se trata de condenação para impedir a candidatura presidencial de Lula.

Negam a legitimidade do próprio poder judiciário, acusando a instituição de estar a serviço da imprensa, das elites e, até, pasmem, da opinião pública.

Esquecem que se trata do judiciário que sempre tivemos. Esquecem que a grande maioria dos juízes da suprema corte e do TRF que condenou Lula foi nomeada por ele e Dilma Rousseff.

Agora, a memória se derrete e a militância petista quer negar a legitimidade de uma justiça que seu ídolo de barro ajudou a constituir.

Na batalha inglória para salvar um condenado da cadeia, seus fieis seguidores prometem tumulto, rebelião e o caos social.

Querem o chefe candidato a qualquer preço. Mesmo que isso represente um intolerável golpe contra a ordem constitucional e signifique rasgar a lei que o próprio Lula promulgou.

Cegos pelo fanatismo ideológico, não enxergam que o lugar de um condenado é na prisão, porque ninguém está acima da lei.

Escrito por João José Leal, 05/02/2018 às 09h12 | jjoseleal@gmail.com

Conversas Praianas - Dubai Brasileira

Estiradas nas milhares de cadeiras de praias, armações de alumínio e plástico estendidas para abraçar corpos femininos vestidos com as duas peças do mínimo tolerado pelo pudor social, uns esculturais, sensuais, outros não tanto, fora do padrão de beleza, porque a natureza é seletiva, mulheres vindas de muitos rincões deste país e do continente sulamericano curtem a vaidade feminina sob a ação bronzeadora dos raios solares.

Quase não falam, o calor escaldante é um convite à indolência. Acima de tudo, sofrer é preciso, para o bronze brilhar na pele do objeto sexual do desejo machista.

Embaixo de outros tantos milhares de guarda-sóis e barracas de praia, oásis de sombra e ócio refrescado pelo sopro da brisa atlântica, homens conversam sobre futebol, mulheres e, também, sobre política. A depender dessas discussões, todos os problemas nacionais estariam solucionados e o Brasil seria o mais rico e feliz país do mundo, porque o efeito deletério do álcool move montanhas, conduz ao devaneio de imaginar que tudo é simples, fácil e possível.

Para esses veranistas vestidos em seus calções de banho, todos os maus políticos desta maltratada nação já estariam condenados e presos.

Lula na frente de todos, com uma longa pena a cumprir em regime fechado, porque lugar de ladrão é na cadeia.

Na temporada de férias coletivas, tempo estival de sol e calor, convite irresistível para contemplar a imensidão oceânica e se banhar no vai-e-vem das águas de espuma e sal, BCamboriú é pouso passageiro de milhares dessas aves de arribação chamadas turistas.

A maioria desses veranistas fica pouco tempo na praia. A rotina do trabalho e dos negócios é mais forte. Como diz a canção nativista, viajam e levam consigo desassossego negocial como companheiro.

Para essas aves de arribação, férias na praia é desperdício de tempo. Mas, acabam seguindo a romaria do turismo praiano. É moda, é chique e a família, em primeiro lugar, merece. Então, veranear é preciso.

E a praia se transforma em acampamento de banhistas sentados à sombra dos tetos de lona sem fim, muitos empunhando uma cerveja enlatada porque o calor convida a uma loira gelada. Outros - gaúcho, como pardal, você encontra em todo lugar - sem bombacha, sem bota e sem guaiaca, sorvendo o mate amargo, porque a tradição não morre à beira-mar.

Em tempo de veraneio e ociosidade, assim é a praia de BCamboriú, com seus espigões de concreto e aço avançando nas alturas sem limite.

Tomada por turistas vindos de perto e longe, até de além fronteiras, já está sendo chamada de Dubai brasileira. Sem petróleo, sem xeique e sem o autoritarismo político e religioso, é claro.

Aqui as mulheres são livres para desfilar de biquíni e fio dental e despertar paixões adormecidas em fracos corações masculinos.

Os homens, livres para criticar o governo e condenar os maus políticos à prisão perpétua, em nome da moralidade pública.

E a nação, essa imensa nave desgovernada, parece continuar afundando.

Escrito por João José Leal, 29/01/2018 às 08h21 | jjoseleal@gmail.com

Conversas Praianas - Lar doce Lar

Sentadas ao redor da mesa, no deque da piscina de um edifício em Balneário Camboriú, mas que poderia ser de qualquer outra cidade praiana brasileira, mais de 9 mil quilômetros de sol, praia, areia, mar e ócio para os abonados ou a elite deste país de contradição social muito maior que nossa extensa faixa litorânea , um grupo de mulheres conversa sobre coisas da vida doméstica, do recanto eufemisticamente chamado de Lar doce Lar.

São mulheres da geração que quase não fala de política nem de futebol, muito menos da crise econômica, que parece passar longe das preocupações dessas senhoras da classe média alta e da elite brasileira.

Assim, o assunto preferido, nessa roda de conversa feminina, ainda fica conta da economia doméstica, dos filhos, dos netos, dos maridos atuais ou passados. Uma delas, sexagenária avó curitibana, envergando um biquíni floral, com visual de quarentona neste tempo de plásticas e silicone, dizia para as colegas que seu apartamento estava virado de pernas para o ar, banheiros e quartos entupidos de roupa jogada no chão, pia da cozinha cheia de pratos e talheres sujos, uma bagunça geral.

O motivo, suas duas filhas casadas, genros e três netos tinham chegado para passar as festas de fim de ano e iriam continuar por mais alguns dias. A rotina cotidiana do velho casal tinha sido completamente quebrada pelo agito sem disciplina nem horário da prole familiar. "Imaginem vocês, minhas filhas disseram que querem curtir as férias, sem compromisso nenhum com hora para levantar ou para comer. Nossos fusos horários não coincidem. Ao contrário, são completamente opostos. Nós nos levantamos antes das oito horas para o café da manhã e a caminhada na praia, antes do sol e do calor. Eles se levantam depois do meio dia, já sol a pino, quando eu e meu marido estamos nos preparando para o almoço".

Revelando certa contrariedade com a quebra da ordem doméstica, mas resignada, toda mãe e avó sabem cultivar muito bem essa virtude chamada resignação, a sexagenária veranista descreve com detalhes a bagunça na cozinha, transformada em verdadeira praça de alimentação. Com tristeza, diz que "é uma confusão geral. Cafeteira e panelas sobre o fogão, xícaras e pratos sobre a mesa, em meio a pães, queijos, geléias, carnes, maionese e saladas.

A velha geração quer almoçar, mas a nova ainda está quebrando o jejum, com sucos, frutas, cereais, cafés e tostadas. Afinal, a juventude também não é de ferro e merece alimentar o corpo, antes de partir para aproveitar a metade do dia não desperdiçada pelo sono matinal da preguiça e da ociosidade.

Então, lembrei do ditado popular: "Família reunida, paz comprometida."

Escrito por João José Leal, 22/01/2018 às 08h25 | jjoseleal@gmail.com

Bitcoin

Dinheiro não dá em árvores nem se pesca de caniço e anzol. Isso, eu aprendi, ainda jovem, quando estudava na Universidade.

Naquela época, apareceu uma dessas correntes com a proposta de se ganhar dinheiro fácil. Na verdade, garantia ao "investidor" ganhar um bom par de sapatos, de famosa marca, por apenas um quarto do valor.

Bastava, você ingressar na corrente, pagar 40 cruzeiros para um amigo vendedor, fazer o mesmo com outros cinco amigos e mandar o dinheiro para fábrica que lhe remetia um belo calçado no valor de 200 cruzeiros.

Paguei os 40 cruzeiros para meu amigo, que conseguiu vender as cinco cotas e receber seus sapatos feitos a mão, em couro cromo alemão.

Mas, não consegui convencer outros cinco amigos dispostos a acreditar na certeza do negócio e bancar o valor do meu par de sapatos. Logo, notei que outros casos semelhantes estavam ocorrendo. Os elos foram sendo quebrados e, em pouco tempo, já não se falava mais em corrente do sapato.

Fiquei no prejuízo. Mas, aprendi a lição: sempre é preciso pagar o sapato que calçamos. E o jeito foi colocar meia sola no meu velho sapato para enfrentar a caminhada diária pelas ruas da então provinciana capital catarinense.

Outras correntes chegaram e se foram, sempre deixando alguém ou muita gente no prejuízo. Inclusive, as sugestivas e, não menos enganosas, pirâmides financeiras, versão moderna das correntes dos anos 1970.

Agora, parece ser a vez dessa tal de Bitcoin, que já impressiona pelo nome em inglês. No nosso idioma, é conhecida por criptomoeda ou moeda digital, unidade monetária que só circula no mundo virtual e cibernético dos computadores. Você não pode ter uma bitcoin nas mãos, colocá-la na carteira nem no bolso. Ontem, uma só bitcoin estaria valendo R$ 52.700,00.

Os entusiasmados adeptos dizem que a bitcoin é a moeda do futuro que já chegou. Isso, é possível. Afinal, a informatização chegou para regular todos os escaninhos da complicada rede de atividades econômicas e sociais pósmodernas.

No entanto, a propaganda do novo produto não parece confiável. Todas, numa só voz, convidam você para ganhar dinheiro fácil. Em muito casos, é claramente enganosa, com anúncios tipo: "Morador de Paraisópolis fatura R$ 1,4 milhão com Bitcoins (Globo.com)" ou, ainda, "Homem compra US$ 27 em Bitcoins e, quatro anos depois, eles valem US$ 1 milhão (UOL)".

Porisso, seus críticos dizem que se trata de mais uma bolha financeira, prestes a estourar. Pessoalmente, sinto-me velho, sem vontade nenhuma de participar dessa nova corrida do ouro. Além disso, serviu-me a lição de meus tempos de universitário: um sapato novo sempre terá o preço a ser pago. 

Escrito por João José Leal, 15/01/2018 às 07h48 | jjoseleal@gmail.com



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João José Leal

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Graduado pela Faculdade de Direito da UFSC, Mestre em Ciências Criminológicas pela Universidade de Bruxelas, Livre-Docente-Doutor pela Universidade Gama Filho - Rio de Janeiro. Promotor de Justiça aposentado e Ex-Procurador Geral de Justiça de Santa Catarina. Ex-Professor de Direito Penal, de Criminologia e Diretor de Ciências Judiciais da FURB - Blumenau. Ex-Professor de Política Criminal e Controle Social do Programa de Mestrado em Ciência Jurídica da UNIVALI.


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