Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Apego à terra

Como tantos catarinenses, Carlos da Costa Pereira (1890/1967) anda muito esquecido, a ele não se ouvindo referências. Foi, no entanto, uma figura admirável e de destaque nos meios culturais e literários de nosso Estado. Nascido em São Francisco do Sul, onde passou quase toda a vida, foi um autodidata que à custa de muito empenho e esforço amealhou vasto conhecimento em vários campos da cultura. Foi jornalista, contista, cronista, ensaísta, historiador e tradutor, tendo fundado e dirigido jornais, além de ter escrito com assiduidade para muitos outros, tanto da cidade natal, como de Joinville e Florianópolis. Ocupou diversos cargos públicos, inclusive o de Diretor da Biblioteca Pública Estadual, função que na época mantinha o status de secretário estadual, e que foi ocupada por outras figuras de relevo. Foi também suplente de senador.

Caracterizava-o, porém, imenso amor à terra natal, forte apego às suas geografias e agarramento com o chão, como dizia Guimarães Rosa, o que o levava a retornar a ela tão logo se desincumbia das missões. Era na antiga cidade ilhoa que se sentia bem, no contato com a família e os amigos, palmilhando as velhas ruas estreitas e curvas que tão bem conhecia.

Foi sócio-correspondente e depois titular da Academia Catarinense de Letras, ocupando a Cadeira número 4, e diretor da revista do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina (IHGSC). Entre seus trabalhos, destacam-se “Um capítulo da expansão bandeirante”, “O nascimento de frei Fernando Trejo & Sanabria em São Francisco”, “Toponímia antiga da costa do Brasil”, “Um ponto controvertido da história”, “A Revolução Federalista de 1893 em Santa Catarina”, “Riscos e traços”, “Traços da vida da poetisa Júlia da Costa” e “História de São Francisco do Sul”, sem contar seus incontáveis textos jornalísticos. No campo da tradução, citam-se: “Viagem à Província de Santa Catarina”, de Auguste de Saint Hilaire (tradução, notas e prefácio), “A Província de Santa Catarina e a colonização do Brasil”, de Léonce Aubé (tradução e notas) e “Viagem à Comarca de Curitiba”, de Auguste de Saint Hilaire, todos vertidos do francês, idioma que revelava dominar. O ensaio sobre frei Fernando Trejo foi realizado a pedido do então governador Nereu Ramos.

“Minhas Memórias”, pequeno volume em que reuniu suas reminiscências, publicado por FCC Edições/Editora da UFSC (Florianópolis – 1996), revela um homem estudioso, integrado no seu meio, bem humorado e feliz. Dotado de memória invulgar, minucioso e atento nos relatos de sua vida, traça um panorama preciso da São Francisco de dantes, desde os tempos anteriores à estrada de ferro e do auge da exportação da erva-mate até épocas mais modernas. São evocados lugares, estabelecimentos, pessoas e fatos envoltos nas neblinas do passado. Não faltam as referências aos livros e autores que lia, as descobertas que o encantavam e as lições que retirava de suas constantes leituras. Lia de um tudo, sempre com intensa curiosidade. Lia estudando. Lia cientistas, historiadores, ficcionistas, poetas, exploradores, aventureiros, pensadores, gramáticos, dicionaristas. É curioso notar que muitos desses autores, talvez a maioria, estão hoje esquecidos ou fora de moda. Salvam-se um Cervantes, um Eça de Queirós, um Jack London, um Machado de Assis e mais alguns, assim como certos cientistas e filósofos cujas obras deixaram marcas indeléveis na trajetória da ciência ou do pensamento. Luís Buchner, Pascal, Maeterlinck, Darwin são alguns exemplos. Interessou-se pela botânica, pela astronomia, pela entomologia, pelas religiões. Deixando o catolicismo caseiro, fez-e protestante, tentou o espiritismo e acabou livre pensador, isento de qualquer credo específico. Embora vivendo numa pacata cidade do interior, seu espírito vagava nas distâncias e estava atento ao que ocorria neste velho mundão sem fronteiras.

A inclinação para as letras se manifestou muito cedo e não tardou a dar início aos primeiros exercícios literários. Com esforço e dedicação dominou a arte da escrita, compondo textos corretos, coerentes e eruditos em todos os gêneros a que se entregou. Enfrentou com bravura acaloradas polêmicas das quais se saiu bem.

Mesmo lendo, escrevendo e estudando não foi um intelectual de gabinete, com as janelas fechadas para o mundo. Participava da vida em família, das festas e troças com os amigos e dos eventos de sua cidade. O capítulo dedicado aos amigos é dos mais interessantes do livro. Eles todos calaram fundo nas suas lembranças e são evocados com ternura e saudade. Não faltaram, como é de ver, alguns inimigos, mesmo porque – como diz o povo – homem que é homem terá por força alguns desafetos.

“Minhas Memórias” teve estabelecimento do texto, introdução e notas de Tânia Regina Oliveira Ramos e cronologia, bibliografia de/sobre o autor por Iaponan Soares. A introdução é um modelo de presunção e eruditismo de biblioteca, em estilo espanta-leitor. Seria dispensável. Não faria a menor falta.

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Registro aqui o meu aplauso ao escritor Silvério da Costa que, no seu Fronte Cultural, publicado no Jornal Sul Brasil, de Chapecó, vem há longos anos divulgando os autores catarinenses e de outros recantos do país. Incansável e dedicado, ele estabelece uma ponte com escritores de todo o país, o que é sobremodo admirável porque aqui, com raras exceções, impera o silêncio. Por tudo isso, Silvério é hoje um dos nossos escritores mais conhecidos no país, como tenho observado nas minhas andanças. Meus parabéns ao amigo Silvério, com votos de que os céus lhe deem muita saúde e disposição para prosseguir na sua faina em benefício das letras e da cultura.

Escrito por Enéas Athanázio, 12/03/2018 às 10h01 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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