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Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O idioma panlatino

A grande quantidade de línguas faladas no mundo dificulta o entendimento e a aproximação dos povos. Essa profusão de idiomas se deve, segundo a lenda, à Torre de Babel onde se implantou o caos linguístico como uma espécie de castigo à pretensão humana de atingir o céu. Afirmam os estudiosos que existem 2796 línguas vivas no planeta, classificadas em 12 grupos ou famílias linguísticas principais e 50 grupos secundários. Quanto mais distantes as raízes dos idiomas, mais difícil se torna a comunicação. Em face disso, ao longo da história, têm surgido projetos de implantação de línguas artificiais ou criadas, dentre as quais o esperanto tem sido a mais difundida e duradoura. Todas essas tentativas, no entanto, falharam e a babel idiomática continua.

William Agel de Mello, diplomata, escritor e consumado linguista, propõe uma solução diferente, inovadora e prática. Diante da impossibilidade da adoção de um idioma único em todo o mundo, como os fatos vêm demonstrando, sugere ele, com base em longos e acurados estudos, a fusão das línguas em grupos derivados da mesma raiz ou tronco. Haveria assim uma união de idiomas aparentados, aproveitando-se o que eles possuem em comum. Não seria uma substituição mas, “ao contrário, o retorno à unidade partindo da pluralidade.A ideia básica é a convergência das línguas numa língua única” – explica o ensaísta.

Com esse propósito, as línguas ficariam pertencendo a grupos designados como Pangermânicos, Pan-eslavos, Pancélticos, Panlatinos e outros. Como o nosso português é derivado do latim, integraria o grupo Panlatino, junto com o espanhol, o catalão, o provençal, o franco-provençal, o francês, o ladino, o sardo, o italiano e o romeno. Entrariam aí idiomas mais e menos falados, mas todos dando sua contribuição. Não se trata, portanto, de um idioma artificial como tantos outros, uma vez que nunca deixou de ser falado. Além de aproximar os homens, “entre as finalidades específicas destaca-se a de servir de veículo de comunicação entre os povos que falam línguas afins” – afirma o linguista, acrescentando: “A superlíngua assim formada é concomitantemente filha e irmã das que lhe deram origem. É uma, mas ao mesmo tempo todas. Outra vantagem incontestável das línguas submetidas à fusão é o fator tradução.” Como se sabe, a tradução de textos de uma língua para outra é uma atividade complexa e inçada de problemas.

Em seu livro “O Idioma Panlatino e outros ensaios linguísticos” (Editora Kelps – Goiânia – 2011), William Agel de Mello expõe em minúcia o projeto Panlatino e faz outras incursões no mundo das línguas. É admirável a segurança com que ele se move nesse intrincado universo, demonstrando completo domínio de tantos temas nele envolvidos, desde a história e  a geografia até os segredos e particularidades de inúmeros idiomas. Seu livro é um manancial inesgotável de informações a respeito das línguas em geral e do Panlatino em particular. Faz comparações e análises, estuda as afinidades e diferenças num trabalho único e que tem merecido a atenção de renomadas autoridades sobre o assunto. É um trabalho que deveria ser conhecido por todos nós, uma vez que é a língua que nos difere dos outros seres vivos.

O autor é também renomado africanista, conhecedor da África por dentro e por fora, historiador e ficcionista. Sobre ele Guimarães Rosa depositava esperanças de que realizaria uma grande obra literária, o que, de fato, aconteceu. Sua obra tem sido submetida ao crivo de numerosos intérpretes, tanto que tem ele nos dias atuais uma extensa e significativa fortuna crítica.

Seria o projeto Panlatino uma utopia? É possível, mas como diz o seu autor “qualquer tentativa, por mais humilde que seja, no sentido de facilitar a comunicação entre os povos é um bem à humanidade.”

Como seria o mundo se não existissem os utopistas?

Escrito por Enéas Athanázio, 14/05/2018 às 10h01 | e.atha@terra.com.br



Enéas Athanázio

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Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 51 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.


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