Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Intervenção

 A família do seu Ivo, morador do Garden City, saiu em férias, depois de muitos anos, já que queriam conhecer Paraty, passando pelo Rio de Janeiro. É claro que, obviamente, temiam pela insegurança na ex-capital do Brasil.

Um belo dia, alugaram um carro no Rio e da locadora mesmo, rumaram para Paraty. Todos acomodados, música tocando a milhão, bocas mastigando salgadinhos e risos soltos;

...Até que, no trajeto, os carros começaram a parar, Lucas, que estava no banco de trás, se agarrou no seu Ivo:

- Pai! Pai! O que está acontecendo...?!!!!!!

A mãe engasgada e já apavorada:

- Ivo, pelo amor de Deus, fecha as janelas!

- Luquinhas, fica calmo, filho...não há de ser nada...Vamos rezar...

- Não posso, mãe! Não paro de tremer...

Seu Ivo, com o rosto suando e muito branco, pediu calma e segurou firme nas mãos de Dona Bibiana e do Lucas. Mas, logo a realidade veio à tona, quando alguém lhes gritou::

- Corre pra cá, cara! Não fica no carro que é pior! Traz toda a tua família pra junto do muro...Era o motorista de outro carro...

Ofegante e tremendo que nem vara verde, Seu Ivo arrastou a mulher e o filho para junto do muro de concreto, que dividia as pistas da Linha Vermelha. Agachados, ficaram ali, com as balas sibilando sobre as cabeças.

- Obrigado, cara, pela força! Já não sabia o que fazer...

- Eu e minha família também fomos surpreendidos...Sou de São Paulo e me dirigia para Cabo Frio, e vocês?

- Somos gaúchos, de Porto Alegre, íamos conhecer Paraty.

- Não desistam de conhecer Paraty, daqui a pouco este tiroteio vai acabar!

- Se não acabar com a gente...

- Só se os policiais nos atingirem!

- Como assim? Não é guerra de facções?

- Do lado de cá, estão os bandidos, mas como eles têm armamento mais moderno e são bons de tiro, se quisessem nos acertar, já teriam feito. O problema para nós são os que estão do lado oposto, mal armados e só estão acertando no nosso muro de concreto, os policiais.

- Deus do céu!

- Eu vim passear, achando que a intervenção federal teria acabado com a bandidagem, estou perplexo e minha família traumatizada.

- Para acabar com a bandidagem no Brasil, teriam que ter começado por Brasília...

- É verdade!

- Já estilhaçaram os vidros dos nossos carros, será que ainda temos chance de continuar viagem?

- Eu espero que sim!

- Como é seu nome?

- Ivo Cezimbra.

- E o seu?

- Adeodato Medeiros.

- Vocês, são de onde, Ivo?

- Moramos em Porto Alegre, no Condomínio Garden City, um verdadeiro paraíso de tranquilidade.

- E vocês, Adeodato?

- Moramos na Aclimação.

- E lá, é seguro?

- Muito. É um bairro de classe média, não atrai os bandidos.

Depois de terem trocado os números de seus celulares, perceberam que os tiros tinham parado. Estavam, por pelo menos duas horas, acocorados e deitados no chão. Ainda apavorados, começaram a levantar, lentamente. Seu Ivo chamou a mulher e o filho, despediram-se rapidamente da família do Adeodato, e correram para o carro; mesmo com os vidros estilhaçados...seguiram estrada a fora:

- Rio de Janeiro nunca mais!

Saíram da divisa do Rio de Janeiro e deram graças a Deus! No entanto, quando já estavam chegando em Angra dos Reis, foram parados pela P. R. F.

- Graças a Deus, que estamos sendo parados por vocês policiais! Vou lhes contar o que aconteceu. O policial, para surpresa geral, mandou que saíssemos com as mãos na cabeça.

- Policial, o que está acontecendo?

- Vocês estão detidos! Houve um assalto em Duque de Caxias, e a polícia de lá informou que os carros dos assaltantes foram metralhados, tal qual o seu! Dona Bibiana e o Luquinhas choravam copiosamente. Seu Ivo, ficou desesperado, ao vê-los assim, depois de tudo que passaram na Linha Vermelha.

O policial, então, levou-os para a guarita da PRF, e os obrigaram, em silêncio, a aguardar o chefe da guarnição.

Depois de quase uma hora, chegou uma viatura da PRF, com o tal chefe. Seu Ivo aproveitou para falar:

- Senhor! Senhor! Deve estar havendo um terrível engano...E, ouviu:

- Cale a boca! Eu não lhe autorizei a falar! Enquanto isso, a mulher e o filho  não paravam de chorar, agarrados no Seu Ivo. Até que finalmente, o chefe da PRF o autorizou a falar:

- Senhor, nós somos turistas de Porto Alegre e, pela manhã, passando pela Linha Vermelha, fomos surpreendidos por um grande tiroteio. Nossa única alternativa foi buscar abrigo no muro de concreto que separa as duas pistas. Quando, finalmente, cessou o tiroteio, partimos para nosso destino, que é visitar Paraty.

- O Senhor tem alguma testemunha, que possa confirmar o que está me dizendo?

- As pessoas que passaram o que nós passamos, tão logo cessou o tiroteio saíram, como nós, apavoradas e fugindo o mais rápido possível.

- Então, o Senhor, não tem alguém que possa confirmar sua versão?

- Sim! Sim!, Alguém nos ajudou, quando a situação estava incontrolável.

- O Senhor tem o nome dessa pessoa?

- Sim! Não só o nome, como o telefone cellular.

O Chefe da PRF fez a ligação e foi atendido pelo próprio Adeodato...

Em seguida. os liberou.

Saíram de lá, abraçados, e prometendo voltar o mais rápido possível, para a tranquilidade do Garden City.

No caminho, o celular do Seu Ivo tocou:

- Eu atendo, Ivo!

- Alô! É a Bibiana, Adeodato!

- Sim! Sim! Estamos bem!

- O Ivo tá dirigindo, sim! Muito obrigada, viu? Olha, já te consideramos um grande amigo! ?- O Ivo manda um abraço também! Luquinhas, idem!?? Depois disso, durante o trajeto de retorno:

- Sabem o que aprendi com toda essa nossa "aventura"...??- Fala, pai!!!?- Olha, filho, entendi o quanto vocês são importantes pra mim. E que não existe um lugar seguro ou sem problemas.? Sabe, tudo na vida é impermanente e transitório. Esse senhor, o Adeodato, nem nos conhece direito e ligou pra saber se estamos bem...?- Isso é maravilhoso!?- A amizade, o amor, a união nos momentos cruciais.

- Paiê! Mãeeê! Tive muito medo! Mas, acho que amo vocês até o infinito! ??Seu Ivo sorriu e seus olhos "marejaram águas salgadas das praias do Rio".?    ??

 
 
Escrito por Saint Clair Nickelle, 07/03/2018 às 09h39 | sannickelle@gmail.com



Saint Clair Nickelle

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Arquiteto aposentado e autor das crônicas denominadas CONDOMÍNIO GARDEN CITY, as quais serão apresentadas em capítulos, descrevendo as relações humanas num condomínio hipotético.


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