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"O que nós produzimos é alimento, não é algo nocivo à sociedade", diz presidente da Abia

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Quarta, 2/5/2018 7:28.

RAQUEL LANDIM
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A indústria de alimentos reconhece que a obesidade vem se tornando um problema no Brasil, mas não quer ser a vilã dessa história. A afirmação é de Wilson Mello Neto, novo presidente do conselho da Abia, associação que reúne as empresas do setor.

"Precisamos evitar que se crie esse mito. O que é produzimos é alimento, não é algo nocivo a sociedade", disse Mello em sua primeira entrevista no cargo. O executivo é vice-presidente de assuntos corporativos da Danone.

A Abia acaba de passar por uma reformulação geral de sua governança, com a criação de um conselho e uma diretoria-executiva. Depois de 32 anos, Edmundo Klotz deixou o cargo de presidente.

Leia a entrevista:

PERGUNTA - A Abia mudou seu presidente depois de 32 anos. Por quê?

WILSON MELLO NETO - O consumidor mudou. Ele opina mais e pergunta mais. Ao longo dos últimos anos, a indústria tem feito um esforço para criar um novo relacionamento com o consumidor.
A entidade que representa a indústria também precisa seguir na mesma direção. Não é um processo de ruptura, mas de evolução, respeitando o legado de 55 anos de existência da Abia. Tanto que tivemos uma chapa única. O Edmundo (Klotz) estará num conselho consultivo. Mas, para liderar esse processo, entendemos que era importante eleger novas lideranças e implementar um novo modelo de gestão e governança.

PERGUNTA - Quais são os pilares dessa nova governança?

W.M.N. - Toda essa mudança nasce com a aprovação de um novo estatuto social para a entidade em março deste ano. Criamos um conselho diretor, uma diretoria-executiva, um comitê de ética, compliance e integridade e outros comitês temáticos.

PERGUNTA - Qual deve ser o principal desafio do setor na sua gestão?

W.M.N. - Temos de começar a discussão por tema que a entidade e a sociedade reconhecem como um problema: a obesidade. Mas precisamos enfrentar essa questão de uma maneira correta, serena e sem muitas paixões.
A indústria tem um papel como parte da solução, mas não é a única causa da obesidade. A origem do problema é multifatorial, incluindo hábitos alimentares e exercícios físicos. Apenas 20% da ingestão calórica de um ser humano vem de alimento industrializado. O mesmo vale para açúcar e sódio: cerca de 20% vêm dos produtos industrializados, o restante é adicionado na preparação dos alimentos em casa, em restaurantes ou no fast-food.

PERGUNTA - Já é praticamente consenso nos países desenvolvidos que a indústria de alimentos colabora com a obesidade, produzindo e promovendo produtos calóricos.

W.M.N. - Temos responsabilidade e somos um ator importante nessa discussão. Vamos conversar com todos os atores envolvidos -sociedade civil, governo, consumidor-, mas precisamos evitar que se crie um mito de que o alimento industrializado é o vilão.
A indústria de alimentos no Brasil tem 35 mil empresas, R$ 600 bilhões de faturamento, o que significa 10% do PIB, gera 1,6 milhão de empregos diretos. Essa indústria é parceria da população. O que nós produzimos é alimento, não é algo nocivo à sociedade.

PERGUNTA - O governo brasileiro está discutindo novas regras de rotulagem, que deixem evidente para o consumidor a composição nutricional dos alimentos. A indústria é contra?

W.M.N. - Existe um consenso entre todos -indústria, governo, entidades de defesa do consumidor- de que precisamos melhorar a informação nutricional dos alimentos.
A indústria concorda com esse fato e quer colaborar no processo. A indústria apresentou a sua proposta formalmente ao governo, baseada no conceito de semáforo. Conforme a concentração dos componentes -açúcar, gordura e sódio-, o produto receberá as marcas das cores vermelho, amarelo e verde. Hoje no mundo existem 16 modelos de rotulagem já utilizados e 10 em discussão. O Brasil vai ter de criar seu modelo.

PERGUNTA - A entidade está preocupada com as reformas estruturais que o Brasil precisa?

W.M.N. - A inflação está sob controle, o emprego vem retomando ainda que de maneira tímida, mas já estamos vendo alguma evolução. O que efetivamente trava a economia e depende de um esforço muito grande é a reforma tributária.
Queremos participar mais ativamente dessa discussão. Não estou falando nem de redução de impostos, que, obviamente é muito bem vinda, mas de organizar o processo tributário brasileiro.

PERGUNTA - Muitos setores reclamam que a recuperação da atividade está mais fraca do que o esperado. Qual é a percepção do setor de alimentos?

W.M.N. - Do mesmo jeito que somos os últimos a entrar na crise, somos os últimos a sair. O setor de alimentação é muito ligado a emprego e renda. O alimento é algo essencial, mas não se engane porque a crise nos impacta. Vivenciamos um processo de deterioração da margem de lucro, com os consumidores trocando produtos por itens mais baratos ou marcas menos reconhecidas. Mas claramente já existe uma melhora. 2018 é um ano estranho, porque teremos eleições e Copa. Os números, no entanto, mostram que a indústria de alimentos está se recuperando.

PERGUNTA - Muitas empresas estão com receio de investir e contratar por causa das eleições, que prometem ser as mais concorridas desde 1989. Como está a expectativa da indústria de alimentos?

W.M.N. - Não temos nenhum receio de gerar emprego e investir, mas, com a crise, a capacidade ociosa das fábricas aumentou. No ano passado, a indústria de alimentos gerou 3.000 postos de trabalho. É pouco, mas positivo. Somos um dos poucos setores que conseguiram superávit entre demissões e contratações.

PERGUNTA - Vocês têm receio de que um extremista -de direita ou de esquerda- vença as eleições?

W.M.N. - Vamos produzir uma agenda da indústria de alimentos e discuti-la com todo e qualquer candidato. Eu, pessoalmente, acredito que qualquer extremo é uma visão míope: você olha apenas para o que te interessa e deixa de observar o todo. Mas não me preocupo muito com isso, porque não acredito que qualquer candidato, se eleito, deixe de dialogar com a sociedade.

PERGUNTA - Existe hoje um embate entre a indústria e Ministério da Fazenda, que defende abertura unilateral da economia e o fim de incentivos fiscais. Qual é a posição do setor?

W.M.N. - O que nós pregamos é previsibilidade e transparência. Se tivermos oportunidade de dialogar, está tudo certo. O resultado final não controlamos. Não gostaríamos de ter surpresas. O alimento hoje tem algumas desonerações: a cesta básica é isenta de PIS/Cofins e outros produtos pagam um valor menor. Nós acreditamos que isso faz sentido porque trata-se de um produto essencial. Gostaríamos que fosse mantida essa lógica. 


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