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CINE-CRÍTICA - 'O Dia Depois' é filme impecável do diretor Hong Sang-soo

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Reprodução

Quinta, 12/4/2018 10:47.

INÁCIO ARAUJO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Certa manhã, bem cedo, um homem, Bongwan, toma café. Sua mulher entra, senta do outro lado da mesa, e começa a interpelá-lo. Por que sair tão cedo? Por que está emagrecendo? Por que mal come? Está namorando alguém?
Bongwan hesita, nega, esquiva-se. Toda a conversa acontece em um único plano: podemos observar os dois, suas reações, silêncios. A força da cena vem dos tempos, da permanência da câmera, do diálogo, dos atores e seus gestos. Bastaria apenas isso para notar que Hong Sang-soo é um cineasta muito especial.

Pouco depois, Bongwan recebe em sua editora a bela jovem Areum, sua nova assistente. Ele é também um célebre crítico literário. Eles almoçam juntos. Areum pergunta-lhe por que vive. Diante de Areum e suas questões Bongwan sente-se tão desarmado quanto diante da mulher.

Bongwan diz a horas tantas que as palavras não conseguem traduzir a realidade. Areum lança-lhe novas questões. O que é realidade? Não será a realidade um sonho?

A essa altura já nos perguntamos se essa é a garota que ele namora secretamente. A mulher de Bongwan não perde tempo com tais perguntas: acha que é e pronto. Vai até a editora e começa a surrar a outra. Só que Areum não era a namorada secreta do crítico. Ele, de fato, tinha se afastado da namorada secreta, que por sinal é ex-secretária.

Já estava bem para um primeiro dia num novo emprego, poderia pensar Areum. Mas a coisa não fica por aí. A antiga ex-namorada e ex-secretária de Bongwan reaparece. Temos então três mulheres e um homem. A conta não importa: nos filmes de Hong é mais ou menos assim que funciona. Aqui há um tanto mais de Ozu no grande mestre coreano: um quê de melodrama, outro tanto de comédia. Mas de um para outro o universo inteiro muda.

Se em Ozu, o homem era senhor do mundo, Hong nos coloca diante de um sujeito frágil, questionável -mas nunca questionador-; ainda senhor do mundo, mas de um mundo esfacelado, em que seu domínio tornou-se uma ficção.

Será então o mundo das mulheres? Pode ser. Não que Hong veja grande futuro nisso. Entre si ou em relação aos homens elas podem chorar, mas nunca em vão: partem para cima sem sutilezas. Como a namorada de Bongwan, que ao ressurgir aconselha o editor a demitir a nova secretária e ainda sugere que ele devea entregá-la à esposa como sua amante...

Com isso, ficamos num só exemplo. Seja o mundo real ou sonhado, com Deus ou sem, todas as hipóteses propostas pelas personagens levam a um mundo nem de santos, nem de demônios. Somos mais seres levados por correntes, por acasos. Podemos chorar ou rir (também o filme: pode ser melodramático ou cômico, conforme o momento).

Nesse discreto turbilhão, Bongwan fará suas escolhas. Ficará com isso e abrirá não daquilo. A vida é um pouco decepcionante, dizia Yasujiro Ozu, o fabuloso mestre japonês. É sim, responde Hong. Não como um eco: com suas próprias e magníficas imagens.

Dos três filmes que Hong Sang-soo fez em 2017, já tínhamos visto o espetacular "Na Praia à Noite Sozinha", agora nos chega esse impecável "O Dia Depois". Falta "O Quarto de Claire": quem gosta de cinema já aguarda com ansiedade.

O DIA DEPOIS (GEU-HU)
CLASSIFICAÇÃO 12 anos
ELENCO Kwon Haehyo, Kim Minhee e Kim Saebyuk
PRODUÇÃO Coreia do Sul, 2017. 92 min
DIREÇÃO Hong Sang-soo

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