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CINE-CRÍTICA 6: Filme sobre vida de operário, 'Arábia' representa cinema brasileiro de alto nível

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Quinta, 5/4/2018 15:31.

INÁCIO ARAUJO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Não criamos uma tradição da ternura. Existem alguns casos isolados: Walter Lima, às vezes, David Neves, quase sempre. Mas o que dá o tom de nossos filmes é outra coisa: pode ser a épica ou o sarcasmo, a violência ou o traço caricatural. O que pauta nossos filmes é, normalmente, a necessidade de compreender o país, de responder a suas deficiências, e não a vida em geral e muito menos as pessoas em particular.

Mas é justamente esse o território de "Arábia", aquele onde se mostram suas virtudes: na capacidade de olhar seus personagens. François Truffaut escreveu certa vez que jamais faria um filme sobre a condição operária, pois, tendo ele mesmo sido operário, achava impossível fazer algo interessante em torno de alguém que passa oito horas por dia fazendo uma coisa que detesta.

Pode ser, mas algo me diz que dessa vez Truffaut errou. A odisseia do operário Cristiano (Aristides de Sousa), tal como narrada em seu diário, é de uma riqueza especial, da qual talvez ele mesmo não chegue a suspeitar. E de cuja grandeza só se pode aproximar quem for capaz de escutar sua voz de simplicidade apenas aparente.

Para escutar essa voz, é preciso observá-lo com a ternura com que o fazem João Dumans e Affonso Uchoa, codiretores e corroteiristas de "Arábia". É assim, afinal, que melhor podemos conhecer as pessoas.

Conhecemos Cristiano pelo diário que dá conta de suas peregrinações por Minas Gerais. Vai de Ouro Preto a Montes Claros, da plantação de mexerica à construção civil, desta à siderúrgica. Cristiano vai do campo à cidade, do ar puro à poluição. Trabalha sempre. Pergunta-se sobre o trabalho, o amor, conversa com amigos. É visitado pelo amor e pela morte.

Escrever o diário é seu ato de consciência: significa perguntar o que é tudo isso. Ou seja, o que é viver. Partilhá-lo é o ato de consciência do filme: dividir conosco, mais do que a aventura física, a aventura interior de Cristiano.

Mas essa é uma aventura do trabalho. Pois é da ideia de trabalho, de um trabalho infinito, que nasce até mesmo o título do filme. Esse trabalho não é apenas físico, é também de compreensão.

E a ternura que tem pelo personagem o filme também tem por nós. Daí a possibilidade tão evidente de identificação. Também nós vivemos em um mundo em que tudo chega como um conhecimento fechado (computador, celulares, motores etc.), acabado.

Nesse mundo pós-industrial que mal compreendemos, executamos operações sobre plataformas já pensadas, mas não as pensamos. Todos são tão operários quanto Cristiano: essa é a questão.

"Arábia" nos leva para esse mar indecifrável, é verdade, mas, para isso, parte do mundo estritamente rural e industrial de Minas Gerais. Um mundo que filma com a mesma paixão, com o mesmo encantamento de um Humberto Mauro.

"Arábia" talvez sofra de um prólogo que pouco tem a ver com o restante do filme, que a pouco mais serve do que a justificar a presença de um diário. Operação dispensável. Seria muita mesquinharia invalidar, por tão pouco, um filme tão forte. Ganhador do 50º. Festival de Brasília, "Arábia" consolida de vez essa formidável escola de Contagem, MG, um desses lugares onde se pratica com regularidade um cinema de alto nível no Brasil.

ARÁBIA

Classificação: 16 anos
Elenco: Aristides de Sousa, Murilo Caliari e Glaucia Vandeveld
Produção: Brasil, 2017. 97 min
Direção: Affonso Uchôa e João Dumans
Avaliação: ótimo


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